#010 Lições aprendidas (Um ato de coragem)


Acho que não teria mais texto novo no blog? Achou certo, faz tempo que não escrevo... mas voltei, bora?

Nesse texto vamos falar sobre Lições Aprendidas, porém sem entrar nos detalhes e nas diferentes formas de uso e práticas de mercado, isso podemos encontrar em diferentes metodologias e frameworks. Minha reflexão é mais direta e pessoal: ela questiona como cada pessoa entende e aplica as lições aprendidas no seu dia.

Ninguém entende a dimensão

Será que todo mundo entende a dimensão e o valor que lições aprendidas praticadas e aplicadas podem e vão elevar o patamar de um time, uma área e até mesmo da empresa? Minha resposta hoje é não, as pessoas não têm essa dimensão. (Ah, mas eu tenho! Então parabéns pra você, você faz parte de uma minoria.)

As lições aprendidas aplicadas e praticadas vão além de estruturar um processo ou mudar a forma de uma entrega e/ou das interações humanas. Elas são um convite para pensar diferente e tentar coisas novas. Há tempos as lições aprendidas buscam identificar o que aconteceu de errado ou o que podemos melhorar, e são raras as exceções em que olhamos para o que deu certo. Como podemos escalar/ampliar essa prática?

Fonte: The Developer's Life

A ilusão do cronograma lindo

Assim como no livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll (e também no filme), a cena entre o Gato e Alice traz a ideia de que, para quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve. As lições aprendidas convidam todos os envolvidos a experimentar algo novo. No universo de gerenciamento de projetos, um(a) gerente de projetos tem uma batalha diária com a ilusão x realidade: ilusão de que o escopo cabe no cronograma, que os riscos são apenas possibilidades, que os recursos estão dedicados, que o caminho crítico está sob controle, que todos os acordos seguirão firmes entre os interessados, entre outros...

Mas, na realidade, estamos nos enganando diariamente, com prazos confusos, com escopos ambíguos, com orçamentos apertados, com times sobrecarregados. Aí vem a ilusão de que o cronograma é a coisa mais "linda": ele esconde as incertezas e apresenta as ilusões. Todos acreditam e seguem sofrendo diariamente, quase um delírio coletivo. E o Gato de Alice no País das Maravilhas volta a aparecer: "Para quem não sabe pra onde vai, qualquer caminho serve."

Nesses 20 anos de atuação nesse universo, confesso que já participei, participo e ainda devo participar dessas ilusões coletivas. Felizmente ou infelizmente, difícil saber quando você é vítima das circunstâncias e quando você acredita nas ilusões.

Fonte: Vida de Programador

O Dom e a Maldição

Um(a) gerente de projetos deveria sempre manter os pés no chão, trabalhar com a verdade e a realidade, apontar os riscos e incertezas nos projetos, mesmo que tenha que enfrentar o desafio de ser tachado(a) de exigente, chato(a), entre outros. Podemos fazer um paralelo com a história.

O deus Apolo, fascinado pela grande beleza de Cassandra, apaixonou-se por ela. Para tentar conquistar o seu amor, ele ofereceu a ela o dom da profecia (a habilidade de ver o futuro perfeitamente).

Cassandra aceitou o presente, mas, depois de receber os poderes, rejeitou os avanços românticos de Apolo. Sentindo-se traído e furioso, mas incapaz de retirar um dom que já havia sido concedido, Apolo decidiu amaldiçoá-la.

A maldição foi cruel: ela continuaria prevendo o futuro com exatidão, mas ninguém jamais acreditaria em suas profecias ou daria ouvidos a ela. As pessoas a tratavam como louca ou mentirosa.

Essa história é tão universal que ganhou até nome: Síndrome de Cassandra, quando alguém fala a verdade, mas ninguém leva a sério. Todo(a) gerente de projetos já viveu isso.

Durante o ciclo de vida de um projeto, a tendência é sempre acreditarmos na narrativa conveniente: um cronograma otimista que todos sabem que é irreal, um orçamento que foi ajustado para ser aprovado dentro do budget.

Os três caminhos

Fonte: The Developer's Life

E desta forma o(a) gerente de projetos vai conduzir o projeto seguindo três caminhos: a incerteza, a ilusão e a realidade.

A incerteza é natural, faz parte do desafio durante o projeto. A ilusão é construída, faz parte da cultura da empresa e das pessoas. A realidade é cruel, e o papel do(a) gerente de projetos é proteger a realidade, não agradar. Liderar projeto não é criar cronograma bonito, é ter coragem de confrontar a ilusão.

Liderar projetos é a arte de administrar esses tradeoffs: ilusão, incerteza e realidade.

Porque a realidade que se apresenta não mente, ela cobra caro, com juros e correção. Gerenciar riscos é técnico, confrontar ilusões é liderança. E se você não tem isso claro no seu projeto, vai passar boas horas criando a linha do tempo do projeto e explicando: por que estamos aqui, o que aconteceu, onde erramos?

Os projetos não quebram pelas coisas que conhecemos e sim por aquilo que deliberadamente escolhemos ignorar.

Um ato de coragem

Dito isso, as lições aprendidas a cada etapa, fase ou entrega precisam ser encaradas com coragem e clareza, de como você pretende agir e/ou melhorar para o próximo ciclo. Um(a) gerente de projetos não deve trabalhar com um único viés de liderança, é preciso usar seu canivete suíço: entender o problema, aplicar as melhores práticas e agir.

Refletir e aplicar as lições aprendidas no seu dia é reservar um tempo da sua agenda e mergulhar na reflexão: onde eu devo melhorar? Como eu posso melhorar? Eu fiz o que estava ao meu alcance? Seja corajoso(a) para questionar qual o tipo de líder e de liderança você aplica diariamente.

Espero que meus questionamentos e reflexões estimulem você a pensar como você tem enfrentado toda essa complexidade e como isso te afeta. Às vezes precisamos entender que as coisas externas são como são e a mudança necessária está em você.

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